Falo sempre da nossa cumplicidade, da nossa proximidade, da rivalidade fraterna. Digo sempre que nos divertimos juntos, que argumentamos e contra argumentados conversas à mesa. Orgulho-me sempre de todas as tuas e das nossas conquistas.
Mas nunca falo da impotência que é ser irmã mais velha e não puder fazer nada para atenuar a tua dor. Da minha incapacidade de fazer voltar o tempo atrás.
Dei-me como voluntária para ser teu escudo protector desde o dia em que nasceste. E percebi a minha inutilidade quando te diagnosticaram com um cancro, quando disseram que só tinhas 5% de hipóteses de sobreviver, quando te retiraram o ilíaco, quando foste operado três vezes no espaço de um ano, quando estás prestes a amputar a perna.
Hoje sonhei contigo. No meu sonho tinhas 10 anos, levavas uma guitarra às costas e um cartaz com algo escrito. Passaste por mim rápido e eu perguntei-te: vais sem canadianas? Tu respondeste: ainda não uso, as canadianas são só para quando for mais velho.
Acordei de repente, com o meu corpo gelado e com um nó na garganta tão forte que pensei que nunca mais conseguisse falar. Chorei em silêncio, como se choram as dores que pesam.
Aqui estamos nós… aqui estás tu a menos de um mês da cirurgia e não há nada que eu possa fazer que mude essa situação. Essa dor não passa mesmo que volte a adormecer e ter outro sonho.
Só a consigo fazer atenuar, porque sei que a partir desse dia vais viver mais feliz.
E talvez seja isso quanto baste a uma irmã mais velha. Saber que o seu irmão pequenino estará mais feliz.

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